Sónia Aires Lima, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa Centro de Estudos Anglísticos da Universidade de Lisboa
Nenhum período histórico existe em completo isolamento dos demais. Os acontecimentos interligam-se e as ideias transitam ao longo do tempo. Apesar de aparentemente distante, a voz dos antepassados manifesta-se através de tradições, simbolismos ou da continuidade de aspetos fundamentais da condição humana, que permanecem, em certa medida, inalterados. Tal é o caso da Idade Média, frequentemente percebida como remota, mas que, em momentos específicos, revela uma surpreendente proximidade com questões contemporâneas.
Este artigo analisa a posição social da mulher, destacando padrões de restrição de movimentos, dúvidas sobre as suas capacidades físicas, morais e intelectuais, e uma misoginia, ora velada, ora explícita, que atravessam tanto a Alta Idade Média como o período vitoriano. Apesar da distância temporal, ambos os contextos refletem sociedades estruturadas por dinâmicas patriarcais semelhantes.
A literatura, em particular a poesia, constitui neste estudo um instrumento essencial para a compreensão de modelos sociais e culturais. A poesia anglo-saxónica de voz feminina e a juvenilia de Anne Brontë, especialmente a poesia de Gondal, exploram questões de género e poder, refletindo tensões culturais que ecoam conceções medievais e vitorianas. O universo poético evidencia o potencial da literatura para transcender barreiras temporais, revelando padrões sociais persistentes e desafiando normas culturais estabelecidas.
0 comments:
Post a Comment